levo Olhão no coração

 Levo Olhão no coração 

Saí da cidade com o coração apertado
O pai disse “força”, mas falou com cuidado
A mãe ficou com os olhos a marejar
E eu levei Olhão sem precisar de empacotar


Na mala levei os mercados e a ria
O cheiro a sardinha e a calçada vazia
Levei o “atão?” e o sorriso da vizinha
E os retratos da vida, que a minha mãe tirava sozinha


Sou de Olhão, da ria e do mar
Do povo que luta sem se calar
Mesmo longe, ouço os barcos a buzinar
Vejo o céu da Formosa quando vou deitar
Já chorei calado, sem saber porquê
Mas levo Olhão no coração, como se fosse fé


Faz falta o barulho das manhãs no mercado
E os amigos da infância no beco encostado
Faz falta o pai, com a máquina ao pescoço
A mãe a registar cada abraço no almoço


Olhão é de gente com mãos calejadas
Com sol no rosto e palavras pesadas
Sofremos, sim, mas sem nunca baixar
O povo d’Olhão sabe bem como remar


Sou de Olhão, da ria e do mar
Do povo que luta sem se calar
Mesmo longe, ouço os barcos a buzinar
Vejo o céu da Formosa quando vou deitar
Já chorei calado, sem saber porquê
Mas levo Olhão no coração, como se fosse fé


Lembro o pai focado na composição
A mãe a brincar com a luz da estação
E eu cá fora, noutra terra e condição
Mas com eles comigo, dentro do coração

Sou de Olhão, e isso ninguém me tira
Nem o vento, nem o tempo, nem a ira
Mesmo longe, sou peixe desta mão
Cresci entre o sal, a sombra e o pão
Já caí, já venci, já pedi oração
Mas em tudo o que sou… levo Olhão no coração

JOSÉ MARTINS

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